• Kátia Boroni

Corujas no Antigo Egito

"I am the things that are, that will be, and that have been..." Neith.



As corujas desde à antiguidade são associadas à sabedoria e ao conhecimento, mas será que que foi graças à Deusa grega da Sabedoria Athena, que possuía uma coruja mocho-galego (Athene noctua) como mascote? Na verdade no Antigo Egito as corujas tinham posição de destaque, eram a mascote de outra deusa, a primeira Deusa do Panteão Egípcio, a criadora do Universo e de tudo o que o compõe, Neith.


Os antigos egípcios eram apaixonados por aves, é possível ver em suas pinturas e hieróglifos a representação de variadas espécies, seja em cenas de caça ou na representação de seus Deuses como Hórus, o deus com cabeça de falcão, ou Ísis e suas asas de milhafre-preto (Milvus migrans), um de seus animais sagrados. E as corujas também estão presentes na sua cultura e escrita, e demonstram uma importância peculiar.



Neith ou Tehenut é uma das mais antigas deidades egípcias, deusa da guerra e da caça, é considerada a criadora do universo e mãe de Rá, o Deus Sol. Segundo Platão, na antiga cidade Egípcia de Saís (conhecida também como As el-Hagar, na parte ocidental do Delta), Athena se fundia com Neith, pelos atributos da guerra e da tecelagem, e por terem o mesmo animal simbólico: a coruja. Além de ser o animal simbólico de uma Deusa, as corujas são facilmente encontradas em desenhos nas tumbas, e também formam parte do alfabeto antigo egípcio, os Hieróglifos.


O termo Hieróglifo é originário das palavras gregas ἱερός (hierós) "sagrado", e γλύφειν (glýphein) "escrita". Provavelmente a escrita hieroglífica é o mais antigo sistema de escrita organizado que existiu, tendo sido utilizada além dos egípcios também pelos hititas e maias. Os hieróglifos são compostos por desenhos que podem representar letras, palavras ou conceitos. Sua escrita e leitura eram exclusivas dos altos sacerdotes, membros da realeza e escribas, sendo Thot o Deus Egípcio ao qual se atribui a invenção da escrita, e protetor dos escribas.


Só foi possível para os pesquisadores decodificarem os hieróglifos graças à descoberta da Pedra de Roseta, um grande bloco de granito onde havia o mesmo texto escrito em três idiomas antigos: Hieróglifos, grego e demótico egípcio. Jean François Champollion e Thomas Young foram os responsáveis pela decodificação dos hieróglifos, e hoje a pedra de Roseta se encontra no Museu Britânico em Londres.


A coruja é a representação do hieróglifo da letra M, mas o fato que realmente chama a atenção é que ela é representada com a cabeça olhando para frente e com seu corpo em perfil, ao contrário de todas as representações egípcias que sempre mostram pessoas e animais de perfil.



É difícil determinar com exatidão as espécies de corujas presentes tanto no alfabeto hieróglifo quanto nos desenhos egípcios, mas as corujas de igreja (Tyto alba) são as mais frequentemente retratadas nos desenhos antigos.




Apesar de serem também associadas à morte no antigo Egito, já que a Deusa Neith ajudava os egípcios na sua travessia ao mundo inferior, não podemos considerar isso como algo negativo, já que a visão da morte do povo egípcio era bem diferente da nossa. Como os hieróglifos não representavam apenas letras, mas uma imagem com poderes “mágicos”, amuletos de corujas eram comuns, usados para ajudar os que os usavam na sua passagem pelo mundo inferior.


A primeira representação de uma coruja data do início da primeira dinastia Egípcia, em um desenho que mostra as vitórias de um rei sobre povoados fortificados. Cada povoado foi identificado com um hieróglifo dentro de paredes fechadas, indicando o nome daquela fortaleza ou cidade. A cidade da coruja é o maior deles, e tem uma coruja dentro de um quadrado sendo atacada por um falcão. Pelo hieróglifo é difícil determinar a espécie da coruja, mas se assemelha a uma coruja bufo-real (Bubo bubo) ou um mocho pequeno (Asio otus). Inicialmente eram as corujas orelhudas as representadas nos hieróglifos, mas com o tempo a coruja de igreja passou a ser a mais utilizada:


“Diferentes espécies de corujas parecem ter sido utilizadas como o hieróglifo m. A coruja bufo-real aparece com frequência até o início do Antigo Reino (até a Dinastia V, de acordo com Houlihan). As características desta ave aparecem esporadicamente mais tarde, mas é principalmente substituída pela coruja de igreja até os períodos Saite e Ptolemaico.” Owls in Ancient Egypt.


As corujas de igreja comumente habitavam os templos egípcios, e apesar de sua representação nos hieróglifos datar desde a Dinastia I, é só a partir da Dinastia III que seguramente se reconhece a espécie nos desenhos. É interessante ainda perceber que as representações das corujas de igreja são facilmente reconhecíveis, apesar de apresentarem pequenos tufos de penas no lugar de sobrancelhas. Uma explicação plausível seria a de que a coruja mocho dos banhados (Asio flammeus) tenha sido a espécie escolhida para a representação do hieróglifo, e depois que a coruja de igreja se tornou mais popular eles mantiveram os tufos, porém não sob a sua cabeça, mas no lugar de sobrancelhas.


O pesquisador Keimer sugere que os antigos egípcios podem ter misturado características de várias espécies de corujas para criar o seu hieróglifo, o que explicaria os tufos de orelhas nas suindaras, o mesmo caso observado no hieróglifo dos falcões. Muitas múmias de corujas foram encontradas em tumbas, não isoladamente, mas junto com múmias de outros pássaros.


Em Tuna el-Gebel foram encontradas dezessete múmias de mocho dos banhados (Asio flammeus), quinze mochogalegos (Athene noctua), seis bufo-reais (Bubo bubo), cinco corujas de igreja (Tyto alba) e uma coruja do gênero Otus. O conhecimento sempre foi considerado como poder na antiguidade, e que este conhecimento, agora adquirido sobre a importância das corujas no antigo Egito, tenha o poder de mudar a forma como muitos as veem, e que ele contribua para o aumento de respeito pela espécie.


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