• Kátia Boroni

Diário de Thot: A espécie



O porque da escolha da espécie Tyto

Continuo aguardando o meu Thot chegar, enquanto isso queria contar para vocês porque escolhi uma coruja tyto furcata para ser minha primeira ave e para o meu projeto Corujando por aí, de educação ambiental.

Primeiramente vamos lembrar que até o presente momento, só duas espécies de corujas podem ser adquiridas legalmente no Brasil, sendo elas a coruja de igreja ou suindara (tyto furcata), e o corujão orelhudo ou Jacurutu (bubo virginianus). Os criatórios que as disponibilizam para venda são Enfalco (tyto e Bubo) e Cerefalco (Bubo). Para comprar uma coruja normalmente você entra para uma lista de espera, que poderá ser bem longa. O mais importante é nunca comprar uma ave de rapina, seja qual for a espécie, sem ter estudado antes, conversado com falcoeiros que tenham a espécie pretendida, feito um curso de manejo quando for possível, para só então comprar a sua ave.

Antes de escolher a espécie de ave que eu queria, eu estudei durante um ano, me associei à ABFPAR e à ANF, fui nos eventos de ambas associações no ano passado e também no Encontro Internacional de Falcoaria em Misiones-Argentina. Além disso fiz inúmeros amigos que tem ou já tiveram experiência com esta espécie para me orientarem, mesmo que à distância.

Então, depois de muito estudo escolhi a coruja de igreja, mas antes vamos aprender um pouco mais sobre esta espécie juntos:


Tyto Furcata

A coruja de igreja é da ordem tytoninae e existem por todo o mundo exceto na Antártica. Acredita-se que exista trinta e quatro subespécies de tyto alba, e todas elas variam de tamanho e cor. No Brasil temos a subespécie tyto furcata. As corujas de igreja habitam áreas diversas, sendo que muitas vivem em fazendas ou gramados onde elas podem encontrar presas facilmente, vasculhando a grama por roedores, e algumas espécies podem viver até mesmo em florestas. No Brasil ela é muito comum e é conhecida por diversos nomes: Suindara, rasga-mortalha, coruja-do campanário e coruja das torres.


As corujas de igreja caçam pequenos mamíferos, na sua maioria ratos e camundongos, selvagens ou urbanos. Elas também podem se alimentar de outros pequenos mamíferos e de insetos como grilos. Todas as corujas engolem o seu alimento inteiro, e no seu estômago é feita a separação das partes não digeríveis (pelos, ossos, etc) e estas partes formam a pelota ou egalópria, que são regurgitadas posteriormente. Elas caçam silenciosamente mesmo na total escuridão, graças ao sua audição incrivelmente aguçada, e sua habilidade de ver os menores movimentos.

Por se alimentarem de roedores ela é considerada como uma das aves mais úteis do mundo, pois controla o número de suas presas sem a necessidade de usar venenos. Porém, exatamente pela sua alimentação elas estão ameaçadas pelo uso indiscriminado de venenos, já que acabam se alimentando de ratos moribundos e morrendo envenenadas também. Ao redor do mundo há várias campanhas de conscientização sobre a importância da sua preservação, e a recomendação de não se utilizar veneno para o controle das pragas urbanas.

A Suindara é uma espécie muito prolífica, se reproduzindo o ano todo. Normalmente a sua postura é de 4 a 7 ovos, e o período de incubação é de 32 dias. Dentro de 50 dias os filhotes já são capazes de voar, mas eles só se separam dos pais depois de completarem 3 meses de vida. Normalmente nidifica em árvores altas, mas também é muito comum nidificar em torres de igreja (daí o seu nome popular) e também em outros prédios.




É quase impossível dizer se uma coruja de igreja é macho ou fêmea, apenas pela sua aparência física. Mesmo assim, as fêmeas normalmente apresentam uma coloração mais escura, no tom bege a marrom, seu disco facial é bege e elas tem muitas pintas pretas no peito. Os machos geralmente possuem o disco facial branco, e o peito pode ser totalmente ou predominantemente branco.As fêmeas são bem mais pesadas e maiores do que os machos.

A expectativa de vida de uma coruja suindara adulta é de 4 anos em vida livre, e no cativeiro há relatos na Inglaterra de corujas que chegaram aos seus 15 anos. Porém, na natureza a maioria das corujas de igreja morrem cedo, de acordo com dados do The Barn owl Trust, 70% dos filhotes morrem no seu primeiro ano de vida.

Obviamente, não há como praticar a falcoaria com uma coruja, pelo menos não com a espécie tyto furcata. Há alguns poucos registros de falcoeiros caçando com o corujão orelhudo (Bubo virginianus), que é considerada a mais feroz e caçadora das corujas, porém por sua estratégia de caça e por serem noturnas, as corujas não são consideradas aves de falcoaria. Nem por isso elas podem ser desprezadas, já que para a educação ambiental as corujas, e especialmente a tyto furcata, são excelentes para criar empatia entre o público e os rapinantes, e elas podem ser consideradas como as maiores porta vozes de campanhas de conservação em todo o mundo.

Por isso mesmo há inúmeros projetos ao redor do mundo que utilizam esta espécie para a educação ambiental, por serem pequenas, muito dóceis e por suas cores. Quando eu participei de um evento de educação ambiental no ano passado, eu fiquei com uma coruja de igreja, um gavião asa de telha e um falcão de coleira ao longo do dia. A quantidade de pessoas (homens, mulheres e crianças) que foram atraídas pela coruja foi infinitamente maior do que pelas outras aves. Portanto, para o meu projeto Corujando por aí, de educação ambiental, eu escolhi esta espécie para educar sobre a importância da conservação das aves de rapina na natureza, auxiliar na desmistificação de lendas populares que causam a morte de inúmeras corujas pelo Brasil, e alertar sobre a posse responsável deste animal, já que ela é a ave de rapina mais vendida entre todas as espécies como pet.

Importante destacar que o treinamento das corujas é feito com as técnicas de falcoaria, as mesmas usadas para as outras espécies, com algumas adaptações apenas. Por isso que mesmo não sendo um falcoeiro é imprescindível que o futuro dono de uma coruja estude e tenha conhecimento sobre a falcoaria, para ter a posse responsável deste rapinante. O ideal é que ele faça cursos de manejo, leia livros sobre a espécie e sobre a falcoaria, e se associe em uma associação de falcoaria para ter apoio e onde buscar ajuda quando for necessário. Também é primordial encontrar um veterinário especializado em silvestres, e de preferencia com experiência com rapinantes.

Para entender ainda mais sobre as corujas de igreja, conversei com alguns donos sobre as suas principais características e sua convivência com elas:

Bate papo com proprietários de Tyto

Proprietário: Diego Bitener

Ave: Batatinha

Tyto fêmea de 9 meses com imprint humano total. Muito bem trabalhada, não faz quase ruído algum em ambiente externo e quando em peso de poleiro. Faz um pouco de barulho em ambiente interno e em peso de vôo, mas nada que chegue a incomodar.

Temperamento

Espécie muito tranquila, desde que seja feito um bom imprint humano desde cedo, não demonstra agressividade com outros animais ou seres humanos, sendo muito utilizada para educação ambiental. Outros animais que ela considere predador, a assustando, ela entra em modo de defesa, se armando e tentando parecer maior para intimidação.

Alimentação e controle de peso

Alimento com codorna, camundongo e rato, ofertados no momento do treino. Pesa aproximadamente 430g com peso gordo e peso de vôo 370g.

Dificuldades de manejo

Ave muito tranquila desde o começo, muito imprintada com todos de casa. Não há o que dizer mais. Excelente pet. Interage muito em suas brincadeiras e táticas de caça.

Diferenças entre a tyto e o corujão orelhudo (Bubo virginianus)

A Tyto você percebe um ar mais dócil, não com aquele ar de caçadora de uma bubo. Por ser bem menor, não recomendo ter junto com outros animais que possam feri-la ou até mesmo mata-la. Ao fazer alguma interação, sempre com supervisão e respeitando os limites e paciência do animal, a fim de não gerar efeitos negativos que causem stress.

Proprietária: Thelleen Balestrin

Ave: Áquila

A ave acima nas fotos é uma Tyto Furcata, fêmea, oriunda do criadouro Enfalco. A Áquila possui 2 anos de idade e possui imprint parcial. Retirada da convivência das demais aves com 4 meses de idade, a Áquila recebeu um prévio manejo já no criadouro, onde, ficou um tempo sem piar. Após alguns meses, iniciou o pio e retornou ao recinto ficando mais 2 meses, para assim poder diminuir o pio. Essa etapa foi bem sucessida. Hoje, ela pia raramente, geralmente após a muda, quando inicia a baixa de peso.

Temperamento e agressividade

A Áquila é extremamente calma. Super dócil com todos os animais. Inicialmente, se assustava muito ao ver papagaios, cachorros e até mesmo com barulho de veículos. Porém, com o manejo diário e a apresentação diária a esses e outros animais, bem como com os ruídos dos veículos ela se adaptou perfeitamente bem. Diariamente, deixo ela em um poleiro diverso do seu usual (em local seguro) onde transita muitas pessoas, bem como outros animais. Com o tempo, ela foi observando e assimilando que pessoas, barulhos e demais animais não seriam uma ameaça. Hoje ela fica descansada, relaxando na presença de qualquer um desses fatores.

Alimentação e controle de peso


Geralmente alimento com codornas e mercol. Fora da muda sua quantidade diária de alimentação é 38 gramas. No inverno, por ter temperatura amena, variando entre 10ºC a -10ºC, aumento para 50 a 65 gramas diárias. Seu peso ideal de vôo é 380 gramas. Na muda, chego a oferecer 55 a 60 gramas, dependendo da temperatura em que inicia a muda. Como há muita instabilidade climática, com grandes variações de temperatura em minha região, baseio-me sempre na temperatura para saber a quantidade ideal de alimento a ser oferecida.

O acompanhamento diário, que venho fazendo desde o momento que recebi a ave, com dados como: tipo e peso do alimento, temperatura, peso da rapinante antes de alimentar e após alimentar, o horário que foi realizada a alimentação e anotação de situações adversas, fez com que conseguisse fazer um melhor mapeamento de seu comportamento nas mais variadas situações.

Dificuldades de manejo

O treinamento foi mais tranquilo, pois o prévio manejo do criadouro ajudou muito.A única adaptação que exigiu maior atenção foi com os demais animais e com barulho de veículos. Inicialmente mantive o peso alto até uma boa adaptação para não incorrer em baixa de imunidade e surgir doenças oportunistas, afinal era perceptível o quanto sentia-se incomodada com tais fatores. Logo após, baixei o peso e iniciei os treinamentos.

Diferenças entre a tyto e o corujão orelhudo (Bubo virginianus)

Tudo é diferente entre uma Bubo e uma Tyto e em grande escala. A Dakota, minha Bubo fêmea, exige mais atenção na hora do manejo. Por ser maior, exige consequentemente mais alimento, um poleiro especial bem como equipamentos mais reforçados. Qualquer incidente com uma Bubo fêmea pode causar consequências mais sérias. Exemplificando, pequenos animais não podem estar fora de seus recintos na sua presença, qualquer descuido em chegar perto pode ser fatal, não tendo tempo hábil para salvamento; enquanto que com a tyto podem ficar soltos, mas esclarecendo, qualquer animal que fica solto, fora de seu recinto, seja ele qual for, só fica se for sob minha supervisão constante. Ainda, a Bubo é mais ativa, tanto de dia quanto à noite, enquanto a tyto de dia, fica mais tranquila e sonolenta, vindo ser mais ativa à noite (dependendo do manejo é claro). Mas ao final, ter ambas é um exercício de muito amor e paciência. Quem nos ensina são sempre eles. Ser leal, ter horários, ser organizado, não ter preguiça para nada...é assim que inicia uma relação que a gente torce para que dure uma vida inteira!!



#ThotsDiary #tytofurcata

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Kátia Boroni é jornalista, e escreve sobre Falcoaria, aves de rapina e

Educação ambiental para os sites Diário de Falcoaria e Corujando por aí. 

 

Kátia Boroni is a journalist, and writes about Falconry, birds of prey and environmental education for the websites Diário de Falcoaria and Corujando por aí.

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