• Kátia Boroni

Raiva em aves

Atualizado: há 12 horas



A pedido da ANF fiz a tradução do seguinte artigo que fala sobre a descoberta de um caso de raiva em um galo doméstico na Índia. O galo contraiu de forma natural a raiva, após ser mordido por um cachorro contaminado por esta doença. Boa leitura,

Kátia Boroni.

Artigo de pesquisa Infecção por raiva natural em um galo doméstico. (Gallus domesticus): Um relato da índia

Julie Baby1, Reeta Subramaniam Mani2, Swapna Susan Abraham1, Asha T. Thankappan1, Prasad Madhavan Pillai1, Ashwini Manoor Anand2, Shampur Narayan Madhusudana2*, Jayachandran Ramachandran3, Sachin Sreekumar3

1 Chefe do departamento de investigação de doenças, Departamento de zootecnia, Kerala, Índia, 2 Departamento de Neurovirologia, WHO Centro de colaboração e referencia e pesquisa sobre raiva, Instituto nacional de saúde mental e neurociência, Bangalore, Índia, 3 Hospital Veterinário, Koithoorkonam, Thiruvananthapuram, Kerala, Índia * mshampur@hotmail.com, mshampur@gmail.com


Resumo

Contexto

Raiva é uma encefalite fatal causada por vírus pertencentes ao gênero Lyssavirus da família Rhabdoviridae. Ele é uma doença viral primariamente afetando mamíferos, portanto todos os animais de sangue quente são susceptíveis. Infecção experimental do vírus da raiva em aves já foi relatada, mas infecção natural pelo vírus da raiva em aves foi raramente documentado.

Principais descobertas

A carcaça de um galo doméstico (Gallus domesticus), a qual tinha sido mordida por um cachorro de rua um mês atrás, foi trazida para o laboratório de diagnóstico de raiva. Uma necropsia foi realizada, mas o tecido cerebral obtido foi submetido à testes de laboratório para raiva.

O tecido cerebral deu positivo para antígenos virais de raiva pelo teste de anticorpos fluorescente (FAT) confirmando o diagnóstico de raiva. Análise filogenética baseada no sequenciamento de genes de nucleoproteína revelaram que a estirpe do vírus da raiva do galo domestico pertencia a um diferente e relativamente rara linhagem do subcontinente Indiano.

Significado

Este caso de infecção por raiva naturalmente adquirida em uma espécie de ave, Gallus domesticus, sendo relatada pela primeira vez na Índia, foi identificada em uma área onde há uma significante população de cães de rua e é altamente endêmica para raiva canina. Isto indica que um alastramento da infecção até mesmo para hospedeiros não usuais é possível em áreas altamente endêmicas. A falta de quaisquer sinais clínicos, e menores oportunidades para testes laboratoriais de diagnóstico de suspeita de raiva em aves, poderá ser o motivo para a doença nestas espécies não serem diagnosticadas e provavelmente pouco relatadas. O abatimento e manuseio de aves infectadas pelo vírus da raiva poderá apresentar um risco de exposição potencial.

Resumo do Autor

A raiva é uma doença viral fatal que afeta humanos e outros animais. Apesar de que todos os animais de sangue quente são susceptíveis a esta doença, a raiva é comumente observada em todos os mamíferos. As aves podem ser experimentalmente infectadas com este vírus, porém, infecções ocorridas de forma natural raramente são relatadas. Nós relatamos um caso não usual de infecção natural de raiva em um galo doméstico da Índia. A ave foi mordida por um cão de rua e veio a óbito após um mês. O tecido cerebral da carcaça foi testado em um laboratório e foi descoberto que era positivo para antígenos do vírus da raiva. Este relato indica que a raiva é uma doença que pode afetar as aves. A maioria das aves sucumbe devido ao choque ou a complicações da mordida do animal e poderão não sobreviver até o desenvolvimento dos sinais clínicos da infecção pela raiva. Além disso, menos oportunidades para testes de diagnóstico em laboratório para suspeita de raiva em aves pode ser a razão para a doença nestas espécies ser subestimada. O abate e o manuseio de aves infectadas pelo vírus poderá apresentar um potencial perigo biológico.

Introdução

A Raiva é uma encefalite fatal causada pelos vírus pertencentes ao gênero Lyssavirus da família Rhabdoviridae. É uma doença viral primariamente afetando mamíferos, apesar de que todos os animais de sangue quente sejam susceptíveis a ela. Na Índia e em outros países Asiáticos mais de 90% das infecções humanas ocorrem devido à exposição à animais raivosos, enquanto que gatos, macacos e outros animais silvestres são documentados como transmissores da infecção para o restante dos casos. [1]. Uma leitura cuidadosa da literatura disponível revelou que a infecção natural de aves com o vírus da raiva tem sido excepcionalmente documentada. A ocorrência de raiva em uma galinha sob condições naturais é extremamente rara [2]. O presente caso clínico de raiva em um galo doméstico foi identificado em uma área que tem uma significante população de cães de rua e é altamente endêmica para a raiva canina.

Métodos

Declaração de ética

Este estudo incluía amostras recebidas para a confirmação de diagnóstico de um galo doméstico que morreu naturalmente. Nenhum tecido ou amostra clínica foi obtida do galo morto especificamente para o propósito deste estudo. Nenhum sujeito humano ou amostras clínicas humanas foram incluídas neste estudo. Por isso, liberação ética dos comitês de ética (IRB, NIMHANS and IRB, CDIO) não foi necessária.

A carcaça do galo doméstico (Gallus domesticus) foi trazida ao laboratório de diagnóstico de raivas pelo chefe do departamento de investigação de doenças, Departamento de Zootecnia, Kerala, India, para o diagnóstico de raiva. A ave tinha sido mordida por um cão de rua um mês antes no seu músculo peitoral. A ferida foi tratada localmente. Depois de um mês, a ave parecia caída e subnutrida por um dia e sucumbiu. Já que a raiva é frequentemente reportada na localidade entre cães e outros animais domésticos, o dono trouxe a carcaça para excluir a raiva. Não foi possível identificar o cão de rua que mordeu o galo e a confirmação do laboratório do seu status raivoso não pode ser feito. Uma coleta de amostras detalhada foi conduzida na necropsia. O celebro completo foi coletado da ave com todas as precauções de biossegurança. Dois laboratórios independentes com instalações para diagnóstico de raiva testaram a amostra.

Testes de Laboratório

Impressões de toque do cérebro foram coradas com a técnica Seller e examinadas pela presença de corpúsculos de Negri. Impressões, fixadas em acetona resfriada a -20ºC, foram sujeitadas ao teste de anticorpos fluorescentes (FAT) para detecção dos antígenos nucleoprotéicos do vírus da raiva [3].

O teste em etapa única de tempo real TaqMan de PCR dirigido ao gene de nucleoproteína foi realizado como descrito anteriormente [4] no tecido cerebral para a confirmação da infecção por vírus da raiva. O sequenciamento parcial do gene foi feito amplificando a região 446 bp do gene de nucleoproteína usando a técnica nested PCR [5]. Os produtos PCR foram purificados usando o kit comercial (QIAquick Gel purification kit, Qiagen, UK) e sequenciado por Amnion Biosciences Pvt. Ltd, Bangalore, India usando primers específicos para os genes. A sequencia foi incluída no banco de dados GenBank sob o número de acesso KP316199.

Sequencias parciais nucleoprotéicas do gene do vírus da raiva foram isoladas no GenBank, representando várias regiões geográficas na índia e dois outros países do Subcontinente Indiano, tais como Sirilanca e Nepal, foram usados para investigar o relacionamento filogenético com a presente estirpe de vírus da raiva. As sequencias foram alinhadas usando ClustalW, e um máximo de probabilidade de árvore de filogenia molecular foi elaborado usando o software MEGA5 [6] com índices de confiabilidade de 1000.

Resultados Nenhuma lesão significativa pode ser observada em nenhum dos órgãos viscerais no exame post-mortem. A lesão causada pela mordida de cachorro no músculo peitoral estava completamente curada. As impressões cerebrais deram positivo para antígenos do vírus da raiva pela FAT, porém corpúsculos de Negri não puderam ser demonstrados. A amostra de tecido cerebral foi positiva para raiva viral RNA por TaqMan PCR em tempo real. A árvore filogenética compreendendo várias sequencias de genes nucleoprotéicos de vírus da raiva isolados da índia podem ser divididos em 2 grupos divergentes (Fig 1).

O grupo mais baixo é composto da maioria daqueles isolados das regiões norte e sul da ìndia, pertencentes à linhagem semelhante à Artic/Artic, juntamente com a raposa Ártica isolada do Canada (incluída para comparação). O grupo superior inclui a presente estirpe (NNV-RAB-FOWL) e outras estirpes de vírus da raiva do Sul da Índia, Siri Lanka e Nepal, os quais pertencem à distinta linhagem do subcontinente Indiano.

Discussão

A raiva tem sido convencionalmente considerada como uma doença de mamíferos e casos clínicos de raiva naturalmente adquirida em aves tem sido relatados com pouca frequência. Poucos relatórios esporádicos foram publicados no final dos anos 1950, indicando uma rara ocorrência de raiva em aves [7, 8]; porém eles continuam não corroborados por falta de relatórios adicionais com evidencia laboratorial sólida de raiva naturalmente adquirida em aves.

Gough and Jorgenson (1976) examinaram 343 exemplos de amostras de soro para anticorpos contra o vírus da raiva e descobriu que 23 deles tinham baixos títulos de hemaglutinação passiva[9]. Porém em outra pesquisa serológica em aves capturadas, não foram encontrados títulos significantes. Uma variedade de aves tem sido infectada experimentalmente com o desenvolvimento de sinais clínicos, geralmente sem o desenvolvimento de sintomas neurológicos, ou com recuperação se sinais clínicos [2,11].

O presente relatório indica que a raiva é uma doença que pode afetar as aves. A falta de sinais clínicos óbvios e menos oportunidades de testar aves por suspeita de raiva em laboratórios de diagnósticos, pode ser o motivo pela doença nestas espécies não ser diagnosticada ou provavelmente ser subestimada.

A localização da ave no presente caso é altamente endêmica para raiva [12]e a presença de uma instalação de diagnóstico facilmente acessível pode ser o motivo da doença ter podido ser identificada em aves. A maioria das aves sucumbe devido ao choque ou a complicações da lesão causada pela mordida do animal e poderá não sobreviver até o desenvolvimento da infecção clinica por raiva.


Figura 1: Árvore filogenética. A árvore filogenética com a máxima verossimilhança foi construída com o software MEGA 5 usando sequencias de genes nucleoprotéicos do vírus da raiva isolados do GenBank representando várias regiões geográficas da Índia e de dois outros países do subcontinente Indiano. Valores de boostrap de 1000 repetições foram usados e os números abaixo dos ramos indicam a porcentagem do boostrap para cada grupo. Estirpes de referência (estirpre M13215 PV e estirpe França AF406696 CVS) e estirpe Artic Fox Canada (RAVN783FX) foram incluídas para comparação.

A análise filogenética baseada no sequenciamento do gene nucleoprotéico parcial revelou 98% de homologia da estirpe do vírus da raiva presente (NNV-RAB-FOWL) a um vírus de raiva canino isolado do Chennai, (AF374721) no estado de Tamil Nadu no sul da Índia.

Interessantemente ele se agrega com outra forma isolada Indiana de Goa, um estado ao sul e também com diferentes isolados do Sri Lanka, do que com outros isolados Indianos do grupo de vírus do tipo Arctic/Arctic , a extensa circulação do qual tem sido relatado da Índia. Relatórios anteriores tinham especulado sobre a presença desta variedade distinta do Sri Lanka e sugeriu o movimento de humanos e de seus animais entre o Sri Lanka e a Índia, particularmente dentro do sudeste do litoral do continente, poderá ter sido resultado do movimento desta variedade entre estas regiões geograficamente separadas [13–15]. Outros estudos confirmaram a circulação desta forma distinta encontrada apenas no Sri Lanka e na maior parte do sul da Índia [16]. Contudo, tipos isolados do Nepal também tem sido relatados como filogeneticamente relacionados com estas distintas variedades e esta linhagem tem sido designada como o clade (nó) do vírus da raiva do subcontinente Indiano. [17]. Este clade (nó) com estirpes filogeneticamente associadas do Sul da Índia (incluindo a presente estirpe), Sri Lanka e Nepal é também evidente na Fig 1. A análise sequencial e filogenética de adicionais representantes isolados de várias áreas geográficas na Índia e em outros países do subcontinente Indiano poderá ajudar na elucidação futura do significado epidemiológico destas variedades. Em conclusão, um caso de infecção por raiva de aquisição natural em uma espécie de aves, Gallus domesticus é relatada na Índia pela primeira vez. Ela indica que o alastramento da infecção mesmo em hospedeiros não naturais é possível em áreas altamente endêmicas. O risco de exposição através do consumo de carne infectada, apesar de improvável, e o abatimento/manuseio de aves infectadas pelo vírus da raiva podem potencialmente por em risco de transmissão de raiva aos humanos, embora nunca tenha sido relatada até agora.

Agradecimentos

Os autores agradecem as instalações de diagnóstico e o apoio concedido pelo Diretor do departamento de zootecnia, governo de Kerala.

Contribuições dos autores

Conceberam e elaboraram os experimentos: JB SSA RSM SNM. Realizaram os experimentos: JB SSA RSM SNM ATT PMP JR SS AMA. Analisaram os dados: JB SSA RSM SNM. Contribuíram com os reagentes/materiais/ferramentas de análise: JB SSA RSM SNM ATT PMP JR SS AMA. Escreveram o ensaio: JB SSA RSM SNM ATT PMP JR SS AMA.

Referências

1. World Health Organization.WHO Expert Consultation on Rabies. Second report. World Health Organization Technical Report Series 982, Geneva: WHO; 2013. 2. Schwarte LH. Diseases of Poultry. 5th ed. New Delhi: Oxford and IBH publishing Co; 1965. 3. Dean DJ, Abelseth MK, Atanasiu P. The fluorescent antibody test. In: Meslin FX, Koprowsky H, Kaplan MM, editors. WHO laboratory techniques in rabies. 4th ed. Geneva: WHO;1996 Pp 88–95. 4. Mani RS, Madhusudana SN, Mahadevan A, Reddy V, Belludi AY, Shankar SK. Utility of real-time Taqman PCR for antemortem and postmortem diagnosis of human rabies. J Med Virol. 2014; 86:1804– 1812. doi: 10.1002/jmv.23814 PMID: 24136727 5. Madhusudana SN, Mani R, Ashwin YB, Desai A. Rabid fox bites and human rabies in a village community in southern India: epidemiological and laboratory investigations, management and follow-up. Vector Borne Zoonotic Dis. 2013; 13:324–329. doi: 10.1089/vbz.2012.1146 PMID: 23473223 6. Tamura K, Peterson D, Peterson N, Stecher G, Nei M, and Kumar S. MEGA5: Molecular Evolutionary Genetics Analysis using Maximum Likelihood, Evolutionary Distance, and Maximum Parsimony Methods. Mol Biol Evol 2011; 28: 2731–2739. doi: 10.1093/molbev/msr121 PMID: 21546353 7. Nikolitsch M. Rabies in a human caused by goose bite. Arch Hyg Bakteriol. 1956; 140(4): 272–275. PMID: 13340743 8. Paarmanne E. Rabies in birds. Z Hyg Infektionskr. 1955; 141(2):103–109 PMID: 13257386 9. Gough PM, Jorgenson RD. Rabies antibodies in sera of wild birds. J Wildl Dis. 1976; 12:392–5. PMID: 16498885 10. Shanon LM, Poulton JL., Emmons RW., Woodie JD, Fowler ME. Serological survey for rabies antibodies in Raptors from California. J Wildl Dis. 1988; 24:264–267. PMID: 3286906 11. Jorgenson RD, Gough PM, Graham DL. Experimental rabies in a great horned owl. J Wildl Dis. 1976; 12:444–447. PMID: 16498892 12. Abraham SS, Sanjay D, George A, Julie B. Epidemiological observations on rabies in Kerala, Indian Veterinary Journal. 2010; 87:222–224.

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