• Kátia Boroni

Gavião Asa de Telha

Atualizado: há 3 dias


Quando uma pessoa inicia na falcoaria, depois de algum tempo de estudo ela normalmente considera o parabuteo como sua primeira ave, preferencialmente o macho por ser de porte mais atlético e ágil. Mas muitas pessoas ainda tem dúvidas sobre esta incrível espécie que revolucionou a falcoaria moderna e hoje é a ave de rapina mais utilizada seja na falcoaria esportiva ou no controle de fauna. Para aprendermos mais um pouco sobre esta espécie, resumi aqui o que dois autores renomados falam sobre o parabuteo, Jemima Parry Jones no seus livros Falconry e Training birds of Prey, e Nick Fox no seu livro Understanding the Bird of prey. Espero que depois de ler esta postagem vocês tenham a curiosidade de lerem mais sobre a espécie para tomarem uma decisão mais consciente, afinal um parabuteo pode viver mais de 20 anos! Boa leitura!

Gavião Asa de Telha


Muitas dúvidas surgem nos iniciantes quando pensam em qual deveria ser a primeira ave. Muitos pensam no sparverius (quiri quiri) porém seu tamanho pequeno exige um controle de peso muito preciso e por isso não é o mais indicado. Um falcão femoralis apesar do porte maior do que o sparverius tem um temperamento difícil, especialmente se não for voado todos os dias, o que o elimina como primeira ave. Sobra então o gavião asa de telha, a mais inteligente das aves de rapina usadas na falcoaria, uma das mais dóceis e de fácil treinamento. Sua introdução na falcoaria foi um divisor de águas e a falcoaria moderna é extremamente dependente desta espécie. Sendo mais mansa, exigindo menos tempo de manning diário, e podendo ser voada com menor frequência do que as demais espécies (não que isso seja recomendável, mas enfim é possível), o parabuteo é hoje a ave mais popular da falcoaria mundial e especialmente da brasileira, sendo muito utilizado nas empresas de controle de fauna.

Para saber mais da espécie coloco aqui a ficha da espécie traduzida, disponível no manual básico y ético de cetreria:


Muitos autores consagrados dedicaram partes de seus livros falando sobre a espécie. Jemima Parry Jones faz um comentário sobre o parabuteo no seu livro Training birds of prey, onde ela diz, nessa tradução adaptada feita por mim:

“Como uma ave para caça ela é excelente, o bônus adicional é que ela não tem o temperamento nervoso dos accipiters. Muitos gaviões asa de telha não tem um desempenho tão bom quanto poderiam porque, já que são tão mansos, eles são normalmente voados acima do peso e podem ficar um pouco preguiçosos. Porém, se a ave estiver seriamente em forma e se for voada diariamente, no peso certo, elas são aves inigualáveis. Eu já ouvi pessoas dizendo que iriam se livrar dos seus parabuteos porque a ave era boa demais e pegava tudo! Então qualquer iniciante deveria escolher um common buzzard, um asa de telha ou um red tail.”

No seu livro Falconry a autora fala ainda mais sobre a espécie:

“Essa é uma das mais interessantes aves de serem voadas por causa da sua abilidade e inteligencia. Estas aves realmente começam a demonstrar uma forma física excelente a medida que ficam velhas e mais experientes, e se beneficiam do tempo disponibilizado à elas. Depois do treinamento inicial elas são aves muito mansas e uma delícia de serem manejadas, porém não pense que elas são tarefa fácil. Nós temos um par de machos que assustaram imensamente nossos alunos nos cursos de falcoaria por não terem sido alimentados por dez dias e terem ficado perigosamente magros.

Sua docilidade levou alguns falcoeiros a pensarem que são aves que não são boas caçadoras, já que elas são obedientes no punho mesmo com peso bem maior do que o que elas precisam estar para colocarem qualquer esforço na caça, pelo menos nos estágios iniciais. Eu gosto de voar todas as minhas aves no peso mais alto possível, mas os jovens Harris precisam estar um pouco com fome antes que eles realmente comecem a pegar o jeito. Uma vez que eles tenham aprendido o que é caçar, eles podem ser voados em uma condição bem alta.


Os asas de telha podem alegremente voarem juntos em grupos, e pares irão ajudar um ao outro na caça, tanto no seu local de treinamento quanto no campo. As aves da primeira ninhada poderão até ajudar os seus pais a alimentarem a segunda ninhada. Isso os tornam aves de falcoaria muito sociáveis, tanto em termos da ave quanto do falcoeiro. Algumas pessoas tanto neste país (Inglaterra) quanto nos Estados Unidos saem em grupos, cada membro voando um parabuteo, deixando suas aves caçarem juntas. Eu não acho que isto irá extrair o melhor do individual da ave, mas ocasionalmente isso não irá causar dano caso a terra e as presas sejam tratadas com respeito. Pode ser uma boa idéia voar pares potenciais e comprovados depois da temporada de reprodução para manter ou construir uma ligação de par.”

O fato de ser possível voar mais de um parabuteo ao mesmo tempo deu uma nova dinâmica à falcoaria moderna, já que de uma atividade solitária no campo agora passa a ser possível ir com amigos ao campo onde todos voam juntos, uma ave ajudando a outra. Um falcoeiro com mais de um gavião também poderá voar suas aves juntas, e a ligação entre elas ficará cada vez mais forte. Nick Fox também fala sobre a vantagem de caçar com parabuteos em grupos:

“Grupos de Harris hawks, com os machos ficando em cima e agindo como observadores, e as fêmeas mais abaixo, são provavelmente a melhor forma de voo do qual o parabuteo é capaz. Eles conseguem certamente matar muitos coelhos assim.”

Porém nem tudo são flores, mesmo sendo uma espécie tão incrível o parabuteo também tem suas desvantagens, porém nada que não possa ser superado ou evitado. É aqui que entra a importância do conhecimento sobre a espécie e sobre o melhor treinamento para ela. Jemima aponta as desvantagens de se voar um parabuteo:

“Eles realmente tem algumas desvantagens apesar de que eu gosto muito deles por isso. Eles são muito espertos. Nós descobrimos que nós não podemos deixar os nossos soltos pertos demais de casa ou eles irão voar de volta pra casa sem nós. Você não pode esconder uma presa abatida para pegá-la quando estiver a caminho de casa, pelo menos não se o parabuteo o ver fazer isso. Eles irão voar de volta para o local onde você escondeu ela e vão tirá-la pra fora. Eles também são bem brincalhões e isso irá algumas vezes te enfurecer – você pode ter um perfeito bando de realmente bons faisões, apenas para ver o parabuteo longe ocupado demais matando um ramo de árvore para ter visto o bando de qualquer forma. Geralmente eles não gostam de cães, provavelmente porque um dos poucos inimigos que eles tem na natureza é o coiote.”

A falcoaria surgiu como uma forma de subsistência, onde o homem usava a ave de rapina para conseguir comida para si mesmo e para sua família, em uma parceria para a sobrevivência mutua do homem e do rapinante. Com o passar dos séculos ela evoluiu para um esporte, sendo considerada como o esporte dos reis. Depois da invenção da arma de fogo a falcoaria sofreu um declínio imenso para ressurgir na idade moderna como um esporte e atualmente até mesmo como uma profissão (empresas de controle de fauna, reabilitação, etc.)

Como hobby a falcoaria é praticada em grande parte do mundo, mas a vida moderna alterou a forma de como ela é feita. Vivemos hoje em uma sociedade majoritariamente urbana, com áreas campestres cada vez mais escassas e distantes. No mundo capitalista de hoje o trabalho vem em primeiro lugar, e o tempo para o hobby diminuiu consideravelmente. Por todos estes fatores não é mais a maioria dos falcoeiros que tem a disponibilidade de tempo para voarem suas aves todos os dias. Muitos acreditam que esse fator seria limitador da prática do esporte, pois sem tempo diário para voar a ave não se poderia tê-la. Outros já tem uma visão moderna e mais permissiva da falcoaria, acreditando que hoje o que conta mais é o lance e não a quantidade de capturas, e portanto voar apenas nos fins de semana não seria um problema nem um impecílcio para exercer a falcoaria ou ser considerado um falcoeiro.

Jemima Parry Jones, como já é de costume, tem sempre opiniões bem fortes e gosta de deixá-las bem claras em seus livros. Sobre este assunto ela diz o seguinte:

"Os asas de telhas ficaram conhecidos como “aves de falcoaria de fim de semana”. Isso de alguma forma é uma vergonha, já que uma ave de fim de semana nunca irá estar realmente em forma, então irá dificilmente mostrar o tipo de estilo e taxa de sucesso que uma ave em forma terá. Eu não acho que você deveria ter a falcoaria como esporte se você pode voar aves apenas nos finais de semana. Afina de contas, não há como manter um cavalo no estábulo, ou um cão quieto, e apenas o exercitar duas vezes por semana, mas é isso que muita gente espera ser capaz de fazer com suas aves. Porém, elas são aves muito úteis para os falcoeiros com tempo limitado para o manning (manusear e manter a ave mansa ao invés de treinar e voar), já que, uma vez amansada, ela irá geralmente ficar desta forma com pouco tempo de manejo diário, ao contrário dos true Hawks (verdadeiros gaviões, os accipiters) que precisam de manning constante."

O tema é polêmico, e nas entrevistas feitas pelo site Diário de Estudos de Falcoaria com Bob Dale e Manuel Obregon Reyes, ambos foram unanimes em dizer que não se deve voar parabuteos apenas nos finais de semana. Porém há que se ter em conta a realidade de vida de cada um deles, o local onde moram, entre outros fatores. Muitos falcoeiros acreditam que é possível ser falcoeiro e voar um parabuteo apenas nos finais de semana, contanto que você o maneje adequadamente durante a semana, como com os saltos verticais, por exemplo. Por isso a escolha da sua ave tem que levar em conta o tempo que você tem disponível para voar ela, a proximidade e tipo de campo que você terá para voar a sua ave. Não é você quem define a ave que quer ter, e sim as suas condições de tempo x campo x experiência é que irão determinar qual ave é recomendada a você. Na dúvida procure sempre um falcoeiro experiente e não deixe de estudar a teoria, afinal a pratica sem teoria poderá resultar em uma ave mal treinada e cheia de vícios que nem sempre poderão ser solucionados.

Aliás, falando sobre vícios e problemas de treinamento, Jemima nos alerta para não reduzir o peso cedo demais, e com isso mesmo comprando uma ave criada pelos pais, acabar criando um imprint alimentar, ou seja, a sua ave irá ver você como o fornecedor de comida dela, o que causa vários problemas, o mais importante deles a vocalização (grito, chamado) todas as vezes que a ave ver você (afinal ela quer comida, uai!) e as vezes (se der sorte, porque pode ser sempre) poderá vocalizar o tempo todo ( e vai por mim, você não vai querer isso, muito menos os seus vizinhos!)

“Quando treinar jovens parabuteos você tem que ter muito cuidado para não começar cedo demais. Eles são aves inteligentes e podem, se removidos dos pais muito jovens e imediatamente terem o seu peso reduzido, imprintar no falcoeiro e começarem a gritar. Então se você comprar um jovem parabuteo não reduza o seu peso logo de cara. Coloque ele em um recinto e dê a ele pelo menos umas duas semanas para se ambientar antes de começar a reduzir o seu peso. “

Concluindo, um parabuteo é a ave mais adequada para os iniciantes, certo? Opa, não é o que o Nick Fox acha! Ele tem uma opinião bem radical e polêmica sobre isso:

“Um dos aspectos mais tristes que ocorrem hoje em dia é que o falcoeiro iniciante logo obtem um parabuteo. Apesar de que estas são aves maravilhosas, elas são de várias formas aves fáceis até demais. O falcoeiro rapidamente aprende maus hábitos e práticas desleixadas. Ele abandona o capuz, é desleixado ao manusear a ave, e é descuidado sobre os tarsos da ave e sobre o nó de falcoeiro. No campo ele é desatento ao paradeiro do gavião, e quando o gavião persegue uma presa o falcoeiro anda calmamente atrás da ave sem o menor cuidado do mundo. Ele começa a achar que sabe uma ou outra coisa sobre a falcoaria! Mas quando ele tenta esse comportamento blasé com um accipiter, sua vida de repente se torna um pesadelo na qual até passar por uma porta exige uma cuidadosa consideração. Um aprendizado com um pequeno accipiter ajuda a desenvolver bons hábitos e uma sensitividade as quais são necessárias para o falcoeiro hábil.”


Concluindo, a escolha da primeira ave não é fácil, e nem mesmo iniciar na falcoaria é fácil. Leva tempo, muito estudo, investimento em equipamentos de qualidade, comprar uma ave procedente de um criadouro legalizado, se possível acompanhar um falcoeiro experiente antes de pensar em comprar uma ave, e logo de cara se associar na ABFPAR (associação brasileira de falcoaria e conservação de aves de rapina) e em uma associação local ou clube se for possível. Antes de comprar a sua ave participe dos encontros que todas as associações de falcoaria promovem todos os anos (veja em links os sites de cada uma delas), faça o curso de introdução à falcoaria que a ABFPAR oferece aos seus associados de forma gratuita nos seus eventos, converse com falcoeiros experientes e só depois compre a sua ave. Quem agradece é ela!

Até breve e bons voos!

Kátia Boroni

Referências:

Fox, N. 1995. Understanding the bird of prey. Hancock House Publishers, Blaine, WA

Manual Ético y Básico de Cetreria. Disponível em:

http://www.mecd.gob.es/cultura-mecd/dms/mecd/cultura-mecd/areas-cultura/principal/novedades/patrimonio/2011/la-cetreria/Manual_Basico_Etico_CetreriaV17.pdf

Parry-Jones, Jemima. Training Birds of Prey.

Parry-Jones, Jemima. Falconry: Care by Captive Breeding and Conservation.

Bibliografia:

Coulson, T. D. and J. O. Coulson. 2012. The Harris’s Hawk Revolution. Parabuteo Publishing, Pearl River, LA.

McElroy, H. 2008. Desert Hawking IV: Quail.

Reyes, Manuel Obregon. La leyenda del aguila de Harris.

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